A MURALHA: UMA PARÁBOLA SOBRE CIVILIZAÇÃO, RESSENTIMENTO E AUTODESTRUIÇÃO – Por Bruno Campos
Numa antiga aldeia cercada por uma grande muralha de pedra, que, por gerações, protegia os aldeões dos perigos externos, viviam três grupos principais de pessoas com opiniões distintas sobre a muralha.
O primeiro grupo dizia:
— A muralha deve ser mantida assim como está, pois, foi ela que protegeu nossa aldeia por gerações.
O segundo respondia:
— Sim, ela é necessária e deve ser preservada. Mas, para isso, algumas pedras precisam ser corrigidas antes que as rachaduras aumentem.
Havia ainda um terceiro grupo que não desejava manter a muralha.
Tampouco reformá-la.
Viviam apontando:
cada pedra torta,
cada erro antigo,
cada injustiça esquecida,
cada falha dos guardiões da aldeia.
Muitas de suas críticas eram verdadeiras.
Mas com o tempo, deixaram de distinguir:
uma muralha imperfeita
de uma prisão absoluta.
Já não conseguiam perceber diferença entre:
o defeituoso e o maligno,
o incompleto e o intolerável,
a rachadura e a ruína.
Passaram então a acreditar que enfraquecer a aldeia era, por si só, uma forma de justiça.
Alguns diziam:
— Se a muralha não pode ser perfeita, talvez mereça cair.
E pouco a pouco, começaram a odiar mais a própria aldeia do que aqueles que desejavam destruí-la.
Além da floresta, do lado de fora da muralha, existia outro povo.
Esses não queriam:
nem preservar,
nem reformar,
nem criticar a muralha.
Queriam derrubá-la completamente para dominar a aldeia e submeter todos os seus habitantes.
Por muito tempo, os dois primeiros grupos caminharam juntos contra esse perigo externo.
Mas com os anos, parte dos guardiões da muralha começou a endurecer o coração.
Passaram a acreditar que qualquer crítica, por menor que fosse, já era traição.
Quem sugeria:
mover uma pedra,
corrigir um excesso,
admitir um erro antigo,
ou melhorar os portões,
passava a ser tratado como inimigo.
Não bastava discordar:
era preciso humilhar,
silenciar,
expulsar,
destruir reputações.
Os mais exaltados começaram então a vigiar mais os próprios habitantes da aldeia do que os invasores além da floresta.
E sem perceber, começaram a se parecer cada vez mais com aqueles que viviam fora da muralha.
Também passaram a:
exigir obediência absoluta,
perseguir dúvidas,
confundir firmeza com crueldade,
e tratar divergência como crime.
Os homens da floresta sorriram ao ver aquilo.
Pois sabiam que uma aldeia dividida entre medo, ressentimento e orgulho já começava a cair sozinha.
Os aldeões do terceiro grupo, por sua vez, alimentavam diariamente as guerras internas.
Não tinham mais capacidade de reconhecer escalas entre o péssimo e o ótimo.
Tudo lhes parecia igualmente condenável.
E assim, muitas vezes, preferiam ferir os próprios grupos da aldeia — mesmo que isso aproximasse a destruição de todos.
Agiam como homens que, ao odiar o teto por suas goteiras, passam a desejar o incêndio da própria casa.
Então, certa noite, durante uma tempestade, parte da muralha cedeu.
Os invasores avançaram pelas rachaduras.
Foi nesse momento que muitos despertaram.
Os guardiões perceberam que haviam gasto mais energia esmagando aliados imperfeitos do que combatendo aqueles que desejavam destruir toda a aldeia.
Os aldeões do primeiro grupo perceberam que reformas sem unidade não resistem a invasões.
E alguns do terceiro grupo finalmente compreenderam algo ainda mais duro:
os invasores não perguntavam a opinião dos aldeões sobre a muralha.
Para eles, toda a aldeia deveria cair.
Foi então que uma sábia anciã caminhou entre os feridos espalhados pela praça encharcada pela chuva e disse:
— Escutem com atenção.
Ela ergueu os olhos para a muralha quebrada.
— Uma casa pode merecer reparos sem merecer incêndio.
Depois olhou para os integrantes do terceiro grupo.
— Quem perde a capacidade de amar algo imperfeito acaba desejando a destruição até daquilo que o mantém vivo.
O silêncio caiu sobre a praça.
Então um velho capitão completou:
— A muralha não enfraqueceu porque tentaram repará-la.
Ele olhou para os próprios guardiões antes de continuar:
— Ela enfraqueceu quando passamos a atacar os nossos com os mesmos métodos daqueles que vinham de fora.
E por fim voltou os olhos para toda a aldeia:
— Nenhuma civilização sobrevive quando seus filhos passam a odiar sua própria existência mais do que seus defeitos.
Naquela madrugada, algo mudou.
Pela primeira vez em muitos anos:
os guardiões aceitaram ouvir,
o primeiro grupo aceitou reformar,
e o terceiro grupo aceitou preservar.
Na manhã seguinte, todos trabalharam juntos.
Uns reconstruíam as pedras antigas.
Outros removiam partes podres.
Todos vigiavam a floresta.
E enquanto o sol surgia atrás da muralha reparada, muitos compreenderam algo que haviam esquecido:
uma civilização não sobrevive quando transforma cada divergência interna em guerra total.
Ela sobrevive quando consegue corrigir seus defeitos sem entregar seus portões àqueles que desejam destruir tudo o que existe dentro deles.
