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Rio de janeiro, 11 de outubro de 2025.
โA inflaรงรฃo รฉ sempre e em todo lugar um fenรดmeno monetรกrio.โ
โ Milton Friedman, 1963
Hรก algo de cรญclico na histรณria econรดmica brasileira. Toda vez que o Estado se vรช encurralado entre o aumento de gastos e a falta de receitas, ele procura uma saรญda fรกcil. E essa saรญda โ sempre tentadora, sempre destrutiva โ รฉ a inflaรงรฃo.
Trinta anos depois do Plano Real, o Brasil volta a flertar com o mesmo veneno que quase o destruiu nos anos 1980: usar a perda de valor da moeda como instrumento de financiamento pรบblico. Ainda nรฃo vivemos o retorno do imposto inflacionรกrio em sua forma plena, mas o cenรกrio fiscal atual jรก prepara o terreno.

A nova tentaรงรฃo inflacionรกria: gastar mais que o paรญs produz
O Brasil vem enfrentando um desequilรญbrio fiscal persistente. Mesmo com o aumento real da arrecadaรงรฃo โ impulsionado pela formalizaรงรฃo do mercado de trabalho e pela alta nominal de preรงos โ, o governo gasta em ritmo mais acelerado. A despesa primรกria federal voltou a crescer em 2024 cerca de 10% acima da inflaรงรฃo, pressionada por reajustes salariais, subsรญdios e renรบncias tributรกrias.
O resultado รฉ conhecido:
- dรญvida bruta do governo geral prรณxima de 78% do PIB (Banco Central, set. 2025);
- dรฉficit nominal em torno de 8% do PIB, patamar similar ao de 2015, prรฉ-ajuste Levy;
- e juros reais elevados, que encarecem o financiamento da dรญvida e alimentam a dominรขncia fiscal.
Diante disso, surge a velha tentaรงรฃo: permitir que a inflaรงรฃo โajusteโ o sistema, aliviando o peso real da dรญvida e ampliando a arrecadaรงรฃo nominal sem necessidade de novas medidas impopulares. Como dizia Milton Friedman, a inflaรงรฃo รฉ o โimposto sem legislaรงรฃoโ โ e, no Brasil, รฉ tambรฉm a vรกlvula de escape da covardia polรญtica.
O imposto que o brasileiro paga sem perceber
O imposto inflacionรกrio foi formalmente descrito por Phillip Cagan (1956) como a receita que o governo obtรฉm ao permitir que o poder de compra da moeda caia, enquanto mantรฉm as despesas nominais estรกveis. Quando os preรงos sobem, a base tributรกria nominal se expande, e a arrecadaรงรฃo aumenta automaticamente.
Imagine um produto que custava R$ 100 e passa a custar R$ 120. Mesmo sem mudar a alรญquota, o governo passa a arrecadar 20% a mais de ICMS, PIS, Cofins, IPI. Como os salรกrios e benefรญcios sรฃo corrigidos com defasagem, o Estado se financia temporariamente ร s custas da sociedade, que perde poder de compra.

Nos anos 1980, esse mecanismo se tornou a principal fonte de financiamento do Estado brasileiro. Entre 1989 e 1993, a inflaรงรฃo mรฉdia anual ultrapassou 1.000%, e chegou a 2.477% em 1993 (IBGE). O Tesouro Nacional dependia do que economistas chamavam de imposto inflacionรกrio puro: a expansรฃo da base monetรกria e a corrosรฃo do poder de compra da populaรงรฃo.
O Plano Real, lanรงado em 1994, idealizado por uma equipe de economistas liderada por Pรฉrsio Arida, Edmar Bacha e Andrรฉ Lara Resende, rompeu com essa lรณgica, separou a polรญtica fiscal da polรญtica monetรกria, ancorou expectativas e estabilizou preรงos. Mais do que criar uma moeda, o Real criou um pacto moral entre Estado e sociedade: o de que o governo sรณ poderia gastar o que arrecada ou toma emprestado de forma transparente.
O novo disfarce: tributar o trabalhador que poupa
Mas o imposto inflacionรกrio moderno รฉ mais sofisticado. Ele nรฃo aparece apenas nas prateleiras, mas tambรฉm no extrato bancรกrio do cidadรฃo. Quando o trabalhador, apรณs esforรงo e disciplina, consegue poupar parte de seu salรกrio e investir em um tรญtulo pรบblico ou privado indexado ao IPCA, ele acredita estar protegido da inflaรงรฃo. Mas hรก uma armadilha: o imposto de renda (IR) incide sobre o rendimento nominal total, incluindo a parte que repรตe a inflaรงรฃo.

Com a inflaรงรฃo nos patamares atuais de 5%, um tรญtulo que promete โIPCA + 6%โ renderรก aproximadamente 13% nominais e o trabalhador pagarรก imposto sobre os 13%. Considerando a alรญquota de 20%[1] de IR, o ganho real serรก de aproximadamente 4,0%. Ou seja, os 6% contratados nรฃo sรฃo o ganho real. E quanto maior a inflaรงรฃo, pior para o poupador. Se a inflaรงรฃo chegar a 10% (como ocorreu em 2002, 2015 e 2021), o mesmo tรญtulo renderรก cerca de 16,6% nominais e o ganho real, apรณs imposto e defasagem, serรก de apenas 3,3%. Portanto, a depender da magnitude da inflaรงรฃo, o retorno real pode ser nulo ou atรฉ negativo.
Para efeitos didรกticos, elaborou-se a tabela a seguir, com cรกlculos simplificados[2], demonstrando o retorno nominal[3] e o real (descontado imposto e inflaรงรฃo) de um tรญtulo que promete pagar IPCA + 6% ao ano, com uma tributaรงรฃo de IR de 20% sobre o rendimento, em cenรกrios diversos de IPCA:

Como se pode observar, quanto maior a inflaรงรฃo maior รฉ a corrosรฃo da rentabilidade do investimento. Mesmo um tรญtulo com um rendimento anual real de 6%, considerado alto em qualquer lugar do mundo, a depender da inflaรงรฃo, o imposto inflacionรกrio pode destruir a proteรงรฃo prometida pelo tรญtulo ao poupador.
E, assim, o governo se financia duas vezes:
- pela arrecadaรงรฃo extra decorrente da inflaรงรฃo;
- e pela tributaรงรฃo de uma renda ilusรณria, que nada mais รฉ do que a devoluรงรฃo parcial da perda de poder de compra causada por ele mesmo.
Importante lembrar que o investidor, nesse contexto, nรฃo รฉ um โespeculadorโ, mas o trabalhador que poupa parte do fruto de seu trabalho โ acreditando estar construindo uma reserva para pagar a faculdade dos filhos ou comprar a tรฃo sonhada casa prรณpria โ e que vรช o Estado corroer seu esforรงo sob a forma de inflaรงรฃo.
A volta do risco de dominรขncia fiscal
A deterioraรงรฃo das contas pรบblicas reabre o risco clรกssico da dominรขncia fiscal, conceito cunhado por Thomas Sargent e Neil Wallace (1981). Ela ocorre quando o desequilรญbrio fiscal se torna tรฃo grande que o Banco Central perde autonomia de fato, sendo obrigado a manter uma polรญtica monetรกria que acomode a dรญvida pรบblica. Quando isso acontece, a inflaรงรฃo deixa de ser um fenรดmeno puramente monetรกrio e passa a ser um fenรดmeno polรญtico-fiscal. O governo precisa que a inflaรงรฃo permaneรงa um pouco acima da meta โ o suficiente para reduzir o peso real da dรญvida e aumentar a arrecadaรงรฃo nominal. O Banco Central, por sua vez, nรฃo pode subir juros demais, sob pena de tornar a dรญvida impagรกvel. O resultado รฉ o que os economistas chamam de โequilรญbrio ruimโ: inflaรงรฃo estruturalmente alta, crescimento baixo e confianรงa em erosรฃo constante. Esse รฉ o flerte que o Brasil vive hoje.

O Estado que se financia da sociedade produtiva
A inflaรงรฃo รฉ uma transferรชncia de renda disfarรงada. Ela favorece quem estรก dentro do orรงamento e pune quem depende do valor real da moeda. Os grupos corporativos e a elite do funcionalismo, protegidos por clรกusulas automรกticas e auto reajustes anuais, rapidamente repรตem suas perdas. Jรก o pequeno empreendedor, o trabalhador e o poupador โ que dependem do mercado โ sรฃo os financiadores involuntรกrios do desequilรญbrio estatal. Como observou o economista Josรฉ Roberto Mendonรงa de Barros, โo Estado brasileiro se tornou um extrator de renda, nรฃo um produtor de prosperidadeโ. A inflaรงรฃo รฉ o instrumento perfeito dessa extraรงรฃo, porque disfarรงa a apropriaรงรฃo de riqueza em meio a uma falsa aparรชncia de crescimento nominal.
O que possibilitou ao pobre ir ร Disney
O Plano Real foi o maior salto civilizatรณrio da histรณria econรดmica brasileira. Ele transformou um paรญs sem referรชncia de valor em uma economia previsรญvel. Foi o Real que permitiu ao pobre e ร classe mรฉdia planejar o futuro, comprar geladeira, financiar a casa prรณpria โ e atรฉ sonhar com uma viagem ร Disney. Nรฃo porque o dรณlar estava barato, mas porque, pela primeira vez, o dinheiro brasileiro tinha valor, e o amanhรฃ parecia confiรกvel. O Real nรฃo foi sรณ uma moeda: foi uma promessa de estabilidade, um pacto de honestidade entre o governo e o cidadรฃo. Romper esse pacto โ mesmo que de forma sutil, pela inflaรงรฃo tolerada โ seria como rasgar o contrato que sustenta a confianรงa no paรญs.

Retomar o uso da inflaรงรฃo como ferramenta de ajuste fiscal รฉ retroceder meio sรฉculo. ร reviver a instabilidade que destrรณi o crรฉdito, encarece o investimento e premia o rentismo de curto prazo. Nenhum paรญs cresce sustentavelmente com um Estado que se financia pela desvalorizaรงรฃo de sua prรณpria moeda. Os nรบmeros provam: entre 2016 e 2024, cada ponto percentual de aumento da inflaรงรฃo reduziu o crescimento potencial em cerca de 0,3 ponto percentual (IPEA, 2025). Inflaรงรฃo nรฃo รฉ expansรฃo โ รฉ anestesia. Funciona por um tempo, mas destrรณi a economia no mรฉdio prazo.
Conclusรฃo: o imposto da covardia polรญtica
O imposto inflacionรกrio รฉ o imposto da covardia. O imposto que se cobra quando falta coragem para cortar gastos, reformar estruturas e enfrentar privilรฉgios. Ele รฉ o tributo do autoengano, o instrumento da classe polรญtica que prefere corrigir nรบmeros ao invรฉs de corrigir condutas. O Brasil ainda tem tempo โ mas o tempo รฉ o ativo mais volรกtil da economia. Defender o Plano Real, hoje, รฉ mais do que defender uma polรญtica monetรกria: รฉ defender o direito do trabalhador ao valor do prรณprio esforรงo; รฉ proteger a sociedade produtiva da gula do Estado; e รฉ lembrar que nรฃo existe dignidade social sem estabilidade monetรกria.
Instituto Civitas
Civitas.org.br
Por uma sociedade apta a defender a liberdade, preservar sua histรณria e construir um futuro digno, รญntegro e prรณspero.
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Referรชncias e notas tรฉcnicas
- Cagan, P. (1956). The Monetary Dynamics of Hyperinflation. In: Friedman, M. (ed.) Studies in the Quantity Theory of Money. University of Chicago Press.
- Friedman, M. (1963). Inflation: Causes and Consequences. Asia Publishing House.
- Sargent, T., & Wallace, N. (1981). Some Unpleasant Monetarist Arithmetic. Federal Reserve Bank of Minneapolis Quarterly Review.
- Arida, P., Bacha, E., & Lara Resende, A. (1994). A Inรฉrcia Inflacionรกria e o Plano Real. Rio de Janeiro: PUC-Rio Working Papers.
- Banco Central do Brasil (2025). Relatรณrio de Polรญtica Fiscal โ Set. 2025.
- IBGE (2024). Sรฉries Histรณricas de Inflaรงรฃo โ IPCA e IGP-DI (1980โ2024).
- IPEA (2025). Boletim Macrofiscal โ abril 2025.
- Mendonรงa de Barros, J.R. (2023). Ensaios sobre o Estado e a Produtividade Brasileira. Sรฃo Paulo: FGV.
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[1] Atualmente (2025), a incidรชncia de IR sobre Fundos de longo prazo e aplicaรงรตes de renda fixa em geral possui carรกter regressivo em funรงรฃo do perรญodo do investimento: Atรฉ 180 dias = 22,5%; de 181 a 360 dias = 20%; de 361 a 720 dias = 17,5%; e acima de 720 dias = 15%. Ver: https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/meu-imposto-de-renda/tabelas/2025, consultado em 10/10/2025.
[2] Desconsiderando marcaรงรฃo ร mercado.
[3] O rendimento de um tรญtulo que paga IPCA + Juros (p.e. NTN-B) incide sobre o principalย somado ao IPCA acumuladoย do perรญodo.

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