Por uma sociedade apta a defender a liberdade, preservar sua história e construir um futuro digno, íntegro e próspero.

Instituto Civitas

Por uma sociedade apta a defender a liberdade, preservar sua história e construir um futuro digno, íntegro e próspero.

Submundo Hacker

ENTREVISTA COM LAUDELINO DE OLIVEIRA LIMA 

 Terça Livre: Em primeiro lugar, fale um pouco para os nossos leitores sobre quem é Laudelino Lima. Sua formação de vida, trajetória pessoal, formação como leitor etc.

Laudelino Lima: Bom, antes de qualquer coisa, obrigado pela oportunidade e pela leitura do livro. Sou da safra de 1972 e fui criado entre o subúrbio carioca, a roça de Piabetá e o mar de Cabo Frio. Aos 13 anos trabalhava semanalmente na feira perto de casa e escondido dos pais, em troca de um grande saco de biscoitos. Aos 14 fiz um curso da Nashua e fui trabalhar como operador de máquinas reprográficas. Nessa época eu também fazia atletismo e natação no Maracanã. Meu segundo grau foi na área de tecnologia e me tornei atleta de handebol. Fiz um estágio no Conselho Nacional de Cinema e depois ingressei no Exército. Me formei oficial R/2 cavalariano, turma de 1991. Trabalhei depois numa construtora, numa administradora de condomínios, na seguradora AIG e numa consultoria implantando ERP. Fui Gerente de Sistemas da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio, CIO na Agência de Fomento do Rio, Coordenador Nacional de Sistemas do braço logístico da fábrica da Peugeot Citroën no Brasil, Gerente Geral de TI do Grupo Editorial Record e hoje continuo trabalhando com T.I. e também implantando a Lei Geral de Proteção de Dados (http://lgpd.in). Atualmente morando em Brasília, completei 35 anos de trabalho na área de tecnologia.   Nesse meio do caminho, tive uma cafeteria e trabalhei e outra.

No ano 2002, conheci o Olavão através do site Mídia Sem Máscara. Na verdade, a coisa surgiu num site de games, onde vi um usuário debatendo com outro sobre marxismo. Descobri com o tempo, que um era professor esquerdista e o outro à época, porta-voz da AMAN.

Conheci o blog “Garganta de Fogo” do Yuri Vieira e lá, uma série de entrevistas com o Olavo. Foi a primeira vez que escutei a voz do tio. Foi num daqueles áudios, que ele pediu ajuda para criar um programa semanal. Assim surgiu o True Out Speak (TOS). Estive presente e ao vivo em todas as transmissões até o programa 298, quanto terminou. Foi no TOS, que o Olavo novamente pediu ajuda na criação do seminário. Eu estava lá ao vivo nas primeiras aulas e acompanhando as transcrições. Tive a honra de ser o prefaciador das tirinhas TrueOutStrips. Escrevo para a revista Terça Livre sempre que posso e também auxilio nos bastidores. Foi o caso da parceria com o canal Hipócritas para a gravação da sátira sobre uma votação num condomínio utilizando o mesmo conceito das nossas urnas. O roteiro foi meu.

Fui o criador dos sites www.monir.com.br, www.averdadesufocada.com, www.tirodefensivo.net, www.ubirataniorio.org dentre outros. Foram mais de trinta. Sou Integrante do podcast literário Ghostwriter (https://www.programagw.com.br/).

Ajudei na divulgação, pesquisas e publicação do livro “1964 O Elo Perdido” e também participei brevemente do episódio do Brasil Paralelo sobre o período.

Fui o digitalizador do livro secreto do Exército sobre as tentativas de tomada de poder no Brasil, o lendário ORVIL, que tacou fogo na internet por volta de 2006. Fui dublador do site Tradutores de Direita na série sobre os Dez Mandamentos. Colaborador do Instituto Brasil Conservador, da IVIN Filmes (Jambock) e um dos fundadores do Instituto Civitas. Possuo o canal Palpiteiro Amador no Youtube e participo do quadro “Seu professor de história mentiu” no canal do Eduardo Meira, onde já detalhamos a vida de Dom João VI, a construção do Brasil, a vida e formação de Dom Pedro I, nossa independência e a libertação de Portugal. Agora iniciamos a história de José Bonifácio.

No meio disso tudo e entre 2002 e 2018, escrevi o livro Submundo Hacker (Faro 2021), uma história ficcional de hackers contra políticos e traficantes. Já entreguei um livro infantil que sairá no segundo semestre e ainda tenho uma encomenda para o fim do ano: Um livro sobre 100 mentiras na história do Brasil. Em paralelo (se isso ainda for possível), tenho dois temas de estudos contínuos: A Questão Christie (Desde 2015) e Votações Eletrônicas (Desde 2000). O interessante é que quando terminei de colocar a última palavra do livro e salvei o texto, vi na TV a informação do incêndio no Palácio Imperial da Quinta da Boa Vista.

Terça Livre: Você publicou agora em agosto o romance Submundo Hacker. Fale um pouco sobre a gênese desse livro, a inspiração para escrevê-lo, o desenvolvimento da obra etc.

Laudelino Lima: Tudo começou em 2002 (Imagem: O início sendo escrito ainda em um Palm Pilot) quando terminei de ler O Senhor dos Anéis. Á época, eu já era um leitor assíduo de segunda guerra e mais um monte de tranqueiras. Lia tudo que encontrava sobre os Maias, esoterismo, Conan, Asimov, Orson Scott Card, Sven Hassel, MAD até Júlio Verne. Tolkien foi um choque. A qualidade do texto era incomparável. A densidade do universo idem. Lembro de terminar com a sensação de nunca mais encontrar nada daquele nível. Desenvolvi uma admiração tremenda por aquele professor. A seguir, um amigo de trabalho me emprestou uma obra de engenharia de produção chamada “A Meta”. Achei interessantíssima, pois explicava conceitos técnicos dentro de uma estória ficcional. Como na época eu estava no Estado do Rio e sem recursos para fazer qualquer aquisição ou melhoria, acabei entrando de cabeça no Linux, nos cursos e na comunidade. Ali conheci um monte de malucos e nos churrasquinhos com cerveja das sextas-feiras, sentados no meio-fio do Buraco do Lume no centro do Rio, resolvi começar a escrever um livro ensinando Linux em meio a uma estória. Ensinava a configurar, atacar e defender. A obra chegou a ter 700 páginas. A parte técnica era um saco para escrever e testar. A parte ficcional era muito mais interessante. Resolvi cortar o técnico e o livro ficou com 160 páginas. Voltei a escrever lentamente e com o tempo eu sentia que a leitura de outras obras, a maturidade, os compromissos, a família e as aulas do Olavo, acabavam por influenciar não só a escrita, mas os temas que eu abordava no livro. Senti que eu poderia escrever algo que tivesse valor para as pessoas e fui até o fim com esse intuito. Chegando nos capítulos finais, senti que faltava um tempero para que tudo terminasse grande. Que acabasse num ápice de virtudes sem ser irreal ou descolado do que eu já tinha feito. Foi quando caiu em minhas mãos o livro “Em busca do sentido” do Viktor Frankl. Assim terminei. Com mais influências que eu consiga descrever. Passagem foram escritas com lágrimas e outras rindo feito um cavalo.

Obs: Li muitas vezes após o término e dentro do processo de revisão da editora que me entregou um desafio de reduzir o livro pela metade para que pudesse ser publicado (Gráfico mostra por capítulo, o original em cinza e o final em laranja).

Um fato interessante, é que conheci meu editor num post de internet que pedia ajuda para um engenheiro venezuelano que estava passando fome nas ruas de São Paulo. Peguei o telefone, fiz minha doação comovido e algum tempo depois descobrimos que éramos do mercado literário. A oportunidade surgiu em meio a caridade. A palavra de Deus nos diz sobre fazer o bem sem pretensões e colher a benção.

Terça Livre: Fale um pouco sobre o processo de composição dos personagens de seu romance.

Laudelino Lima: Para me ajudar a transformar um personagem em palavras, eu precisei adotar mentalmente algumas pessoas. É um recurso muito bom, pois você não precisa se preocupar com a idade, forma física, maneira de falar e a possível reação em determinada situação. A pessoa escolhida já traz tudo isso em seu círculo de latência. Existem vários núcleos no livro. Os hackers, os policiais, os perseguidores, o doleiro, a Base, o Systema e os familiares. No início me preocupei com a grande quantidade de personagens, mas depois vi que estavam todos surgindo naturalmente e que contribuíam para uma narrativa completa. Eu sempre fui muito observador e isso facilitou bastante. Em 1986 eu fiz um curso de desenho no SENAC (Sigourney Weaver desenhada com pontos em nanquim) que nos obrigava a desenhar um lápis solto na mesa, uma maça, um maço de cigarro. Isso foi muito rico para mim, pois me ajudou a perceber detalhes diminutos nas coisas e eu percebi que as pessoas também possuíam esses pequenos detalhes perceptíveis na leitura corporal, palavras e na entonação vocal. Eu aproveitava todos os momentos do dia para observar as pessoas que poderiam me auxiliar na construção de algum personagem. Filmes também ajudam, pois as vezes a realidade não é tão verossímil (rs).

Terça Livre: Há algumas influências evidentes em seu livro. Entre elas, destacam-se Olavo de Carvalho (em muitos momentos da narrativa, é como se o leitor olavete estivesse fazendo uma revisão de aulas do COF), Viktor Fankl, Chesterton e a doutrina da Igreja Católica. Fale um pouco sobre o papel de cada uma dessas influências da composição de sua obra.

Laudelino Lima: Literatura é impregnação. Ninguém pode dar o que não tem. Para parecer com alguém é preciso incorporar e treinar. Se alguém me perguntasse o que precisaria fazer para começar a tocar e criar uma banda, eu diria que antes de tudo, deveria escutar muita música, ter algum conhecimento de teoria musical e praticar muito. Deve tentar tocar tal como ouve. Imitar mesmo. Com o tempo e com a mistura de ritmos e gêneros, a pessoa acaba por desenvolver a sua voz e as suas características. Em literatura é praticamente impossível alguém ser original. O hábito humano de contar histórias e estórias é muito antigo, e somos bombardeados desde o nascimento com múltiplas mídias fazendo isso. São tantas referências que já não conseguimos identificar a origem dos nossos gostos e preferências. Estão conosco e chegaram durante a nossa jornada. Ficaram. O Olavo disse muito acertadamente numa de suas aulas que cultura, é tudo aquilo que sobra quando você esquece o que aprendeu. É isso. Viktor Frankl, Olavo, Chesterton e a tradição católica, são obras humanas que só fui conhecer com o auxílio da maturidade. Todas me tocaram profundamente e já não consigo me desvencilhar delas. Fazem parte de mim e acabam fluindo para o teclado, assim como no meu dia a dia em minhas ações e atitudes. Sou o cara mais imperfeito que conheço, mas agradeço a Deus ter tido a oportunidade de ter conhecido o Olavo. Devo-lhe minha sanidade, minha vida intelectual e meu retorno à igreja.

 

Terça Livre: Nos agradecimentos do livro, você cita o professor Rodrigo Gurgel (Foto com o Laudelino em Brasília), que está tendo um papel importante na formação de novos leitores e escritores no Brasil. Fale um pouco sobre essa influência do professor Gurgel na sua formação.

 

Laudelino Lima: Conheci o crítico literário Rodrigo Gurgel, na treta acontecida no prêmio Jabuti, quando ele tascou uma nota zero em um livro ideológico de alguém. A gritaria geral me chamou a atenção. Fui olhar mais de perto e vi que ele tinha razão na nota aplicada. A gritaria era apenas um monte de gente que só reclamava, mas eram incapazes de comentar o parecer entregue pelo professor. Olhando mais de perto ainda, vi que ele era aluno do Olavo de Carvalho. Que alegria!

Em 2013 eu tirei uma semana de folga e fui para Chicama no Perú. A idéia era surfar o dia inteiro. Como era uma região desértica, não havia o que fazer no resort a noite. Resolvi comprar o seu curso sobre “A Descoberta do Ensaio” e passei a semana toda estudando os diversos autores apresentados. Eu tinha todo o interesse em absorver tudo. O Rodrigo acabou sendo uma fonte maravilhosa de autores e hoje mantem um canal no Telegram, que é uma das coisas mais ricas que já vi. Guardo também profunda admiração pelo professor.

Terça Livre: Já que falamos de Olavo de Carvalho e em novos escritores, o professor há tempos fala sobre uma crise da literatura nacional, que acompanha o processo de degeneração da inteligência no Brasil, sendo que, depois dos anos 60, são cada vez mais raros bons escritores brasileiros. Pois bem, nos agradecimentos do seu livro, você menciona que após conhecer o grupo Jovem Nerd, o Eduardo Spohr e o podcast Ghostwriter, descobriu “um mundo pulsante de literatura que não conhecia”. Além disso, você também cita alguns escritores contemporâneos de seu círculo de conhecimento e outros que conheceu em contato com a editora Record. Fale um pouco sobre essa galeria de novos escritores que você conhece e suas expectativas, de maneira geral, em relação a essa geração.

Laudelino Lima: Enquanto eu escrevia a obra, não me iludia com a idéia da publicação. Eram raríssimos os autores nacionais que eu conhecia. As aulas de literatura na infância que nos obrigava e ler e fazer prova sobre livros intragáveis de militantes políticos, assassinou meu interesse pela literatura nacional. Quando eu li uma matéria da Cora Ronai no finado jornal O Globo em 2013, sobre um escritor carioca que estava fazendo sucesso, foi um baita presente. Descobri o Jovem Nerd, a obra do Eduardo e que autor brasileiro poderia ser publicado. Aquilo mudou completamente minha perspectiva. Entrando no assunto e nos sites, descobri outros autores como o André Vianco. Por essas coincidências do destino, fui trabalhar no mercado editorial. Já em 2015, fui o presidente do estande da Record na Bienal do Rio (Foto: 7 de setembro de 2015. Eu tinha a única bandeira do evento). Durante meus anos por lá, conheci diversos autores fantásticos como o Bruno Garschagen e o Alberto Mussa, esse tido pelo Olavo, como o melhor autor da atualidade. Eu, estava completamente encantado com a idéia de poder publicar. Conversei muitas vezes com as impressoras Cameron da Record, dois gigantes que imprimiam 600 novos livros por ano. Imaginava se um dia meu livro poderia sair daquelas engrenagens. Eu seguia trabalhando e vendo escritores de perto. Fiquei impressionado com a humildade do Eduardo, a cultura do Bruno, a simplicidade do Mussa e a família inteira da Carina Rissi. Eram pessoas comuns como todos nós e que batalhavam duro para conseguir publicar um livro. Olhando tudo aquilo de perto, sentia a cada dia, que era possível e o mercado absorvia. Toda essa nova geração, conseguia vender muito bem e não param de surpreender. O Eduardo Spohr por exemplo, acaba de entregar uma primeira obra de uma trilogia, que conta a vida de São Jorge de uma maneira impressionantemente real e hollywoodiana. É um filme pronto. É nosso. É brasileiro.

Terça Livre: Agora, falemos um pouco sobre o trabalho do escritor, que exige método e disciplina. Você também menciona isso quando cita o amigo André Gordirro, que te ajudou nesse sentido. Relate um pouco sobe essa experiência.

Laudelino Lima: Conheci o André através do grupo do Ghostwriter. Ele é jornalista, escritor e tradutor das antigas. É a única pessoa que eu conheço que já levou um tiro e uma facada. É um nerd raiz tijucano e tricolor, que já entrevistou praticamente todo o primeiro e segundo escalão de Hollywood. Tem uma memória obscena para nomes fatos e eventos. Consegue passar horas falando sobre produções, filmes, livros, gibis e games. Foi nos jogos que tivemos mais contato. Jogávamos todas as noites, divertidíssimas partidas de PUBG, um jogo de tiro muito popular.  Nosso time passava mais tempo rindo de nossos defeitos do que comemorando nossos sucessos. Por diversas vezes o André se ausentava do jogo noturno, por conta de compromissos assumidos para entrega do seu livro, (Os Portões do Inferno) ou de alguma tradução. Com o tempo eu comecei a admirar aquela postura. O André não tem carteira assinada nem um outro emprego qualquer. Todo centavo que ganha, vem praticamente das suas traduções e artigos. Não há espaço para um dia ruim. É uma realidade para muitas pessoas. Todos os dias exigem vitórias. Nós chegamos a conversar algumas vezes sobre o que eu já havia percebido e ele me deu várias dicas também. Sim, o escritor é um escravo de uma rotina. Inspirado ou não, tem que escrever. Se o texto ficar estranho, acerta depois. O importante é manter o foco e o ritmo. Stephen King diz que chova ou faça sol, escreve dez páginas por dia. Ryoki Inoue, brasileiro autor de mais de 1293 livros e o mais publicado no mundo, conseguiu escrever três romances em um único dia. Eu melhorei muito quando eu conheci o software Scrivener. Me ajudou bastante na organização do texto. Eu usei também um software para desenhar a timeline de eventos e pessoas, de maneira que nada ficasse fora do controle. Cada escritor acaba desenvolvendo um método. Eu sigo o que aprendi em tecnologia. Começo ultra macro e vou quebrando em partes, mas sem perder o objetivo. Eu nunca comecei um texto já sabendo do fim. É sempre uma idéia inicial que eu vou desenvolvendo ao longo da narrativa. Tudo tem que ter um início, meio e fim. E tem que ter sempre alguma surpresa ou algo de mistério.

Terça Livre: Voltando a falar sobre as influências presentes no seu livro, é bastante nítida a influência da cultura pop, em especial do mundo das HQs – pessoalmente, vi muito do Luciano Cunha, que ilustra a capa, e do Chuck Dixon em sua trama. Gostaria que falasse especificamente sobre essa contribuição na composição de sua história, e se você tem, inclusive, planos para uma adaptação para os quadrinhos (aliás, seria até uma sugestão que eu daria).

Laudelino Lima: Há! Muito bom você perguntar isso. Não tive influência do Luciano. Comecei a escrever seis anos antes dele ter a idéia. Eu me surpreendi muito quando li o DESTRO e o Doutrinador. Eu já tinha terminado o livro em 2018 e li os quadrinhos em 2020/2021. Troquei até mensagens com ele (Spoiler) me divertindo com tudo isso. Há um ponto a ser estudado por alguém. Porque essas duas estórias criadas em épocas diferente e por pessoas diferentes, apresentam esses pontos de coincidências? Eu acredito que o momento que vivemos e as crenças similares, nos conduz nessa direção.

Sobre a capa. Sem comentários. O Luciano é fera.

Sobre virar quadrinhos, acredito que seja um movimento natural caso venha a ter sucesso. Como eu escrevo em forma de filme e já penso a estória como filme, me é muito importante que o leitor construa em sua mente algo mais próximo do que eu imaginava. Em texto e com as restrições de espaço, nem sempre é possível fazer, ou seja, o quadrinho é uma ferramenta complementar na construção do imaginário. Eu sempre gostei muito de encontrar nos livros, algum desenho ou imagem que ajudasse a construir o cenário mental da história. São clássicos os vários desenhos que os fãs de O Senhor dos Anéis, produziram ao longo da história. Muito do visual que vimos nos filmes, foi idealizado por leitores a partir do texto do Tolkien. Eu acho mágica essa relação entre o fã e o autor. Penso no futuro em convidar leitores para ajudar na construção da narrativa de algum livro. É impressionante a quantidade de boas idéias que surgem quando você não trabalha sozinho.

Terça Livre: Fale sobre expectativas que você projeta em relação à recepção de seu livro, sobretudo entre o público adolescente.

Laudelino Lima: Esse é um livro escrito para todas as idades. Embora um dos beta-readers tenha dito que parece um livro católico, não se assustem. Contém palavrões. Escrevi para ser real e consegui, pois, a editora perguntou se aquilo tinha acontecido em algum lugar ou época. Mas, durante o tempo todo eu pensei na juventude e nas pessoas que estão em busca de entender o que está acontecendo a nossa volta. É um livro que pode ser comentado em muitas camadas. Há certamente a primeira camada relativa a uma estória eletrizante. Há a camada do mistério, as organizações ocultas que brigam entre sim. Há a camada política e do tráfico de drogas. Há a camada histórica referente ao Brasil. Há a camada do insólito dia-a-dia de algumas comunidades. Há a camada dos conflitos humanos, dos valores, da família, da amizade, do amor. Há a camada literária. Há a camada filosófica e psicológica. Há a camada religiosa e também vários “easter eggs” sobre temas importantíssimos e que só podem ser comentados com quem terminar a obra.

Tenho muita expectativa com a juventude, pois quem dessa idade leu, confessou ter sido impactado como nenhum outro livro. Impactado sobre a realidade da vida. Quem termina essa estória, vira a última folha entendendo o real sentido da vida. É um livro que te deixa mais forte ao acordar na manhã seguinte. Ele vai fazer parte de você. Será um amigo.

Terça Livre: Para finalizar, e sem querer soltar spoilers aos nossos leitores, mas sua história deixa algumas pontas soltas, alguns “assuntos inacabados” que acredito que sejam propositais. Nesse sentido, há planos para uma continuação?

Laudelino Lima: Bom, quando escrevi, busquei ser o mais real possível e isso significa que nem tudo precisa ter um fim ou ser explicado. Muitas boas estórias, terminam incompletas e essa incompletude alimenta o debate e a discussão sobre as possibilidades. Eu adoraria ter uma “intima$$ão” enorme por parte da editora para escrever uma continuação, mas no momento eu não faria isso. A maior parte das pontas foram finalizadas e esse único livro conta uma estória completa. Ele cria todo um novo universo de personagens e situações que podem fazer explodir as fan-fic e dou todo o apoio para quem deseje brincar com essas alternativas. O livro tem um início, meio e fim.

Eu já entreguei uma outra estória à editora e que sairá muito em breve. É uma estória infantil muito edificante e que surge a partir de um acidente de caminhão numa comunidade de beira de estrada. A população ao saquear a carga, descobre que era um caminhão de livros e abandona tudo no local. Aninha, uma menina por volta de dez anos e com a mãe, pede ao motorista para pegar um dos livros e ele autoriza. Ela chega em casa, arruma todas as suas bonecas na cama e começa a leitura com todas as dificuldades para uma menina dessa idade e sem a prática. A partir desse ponto, sua vida é transformada completamente e a estória segue até a sua vida adulta. A totalidade das pessoas que leram o script inicial choraram. A editora contratou um desenhista de nível internacional, assim como peritos, para que o livro tenha acesso a todo tipo de escolas e compras do governo. É preciso aumentar a nossa base de leitores e esse trabalho começa desde cedo.

Um outro trabalho já solicitado pela editora, tem relação com o nosso bicentenário no próximo ano. Por conta dos meus vídeos de história do Brasil no Youtube e a série também de história no canal do Eduardo Meira, devo entregar no fim do ano um livro contando “100 mentiras na história do Brasil”.

Guardado na gaveta, tenho três outras estórias. Uma comédia que comecei com meu falecido pai e que tenho o compromisso moral de terminar. Se chama “O homem que atropelou a morte” e é literalmente isso. Um homem atropela a morte enquanto ela trabalha e é capturado pela senhora sinistra para acompanha-la em busca de almas durante o dia. Seu carro fica cheio de almas no banco de trás e a confusão é garantida com todos querendo interferir na maneira como a morte desenha a morte de cada pessoa.

A próxima se chama “A Recriação” e surgiu num sonho após uma aula do COF. O Olavo falava sobre a revelação surgida com cada uma das grandes religiões e eu sonhei que um enorme anjo de quatro metros de altura, sentado no topo de um prédio no centro do Rio e sendo filmado e transmitido para todo o mundo. A pergunta é: O que a humanidade faria hoje, se um evento dessa magnitude acontecesse na cara de todo mundo?

A estória segue com o anjo passando um pode especial para um rapaz daquele prédio que entra em coma e acorda quatro anos depois com uma inteligência plena e todas as respostas para qualquer questão. Recebe a missão de melhorar o mundo. Em paralelo, surge em algum outro lugar do planeta, seu antagonista que fará de tudo para impedí-lo. Os anjos recebem autorização para permanecerem na terra com o jovem e assim começa uma guerra.

O último trabalho se chama “Damnatus”.  É a estória de um funcionário público que cresceu em um orfanato onde viveu até a maioridade. Sua boa formação, disciplina impecável e inteligência acima da média, sempre lhe ajudaram a superar os degraus da vida e a conseguir um relativo sucesso profissional. Seguia sua rotina controlada de trabalho e atividades particulares. Ele imaginava que possuía pleno domínio de sua vida e de seu futuro, mas uma série de encontros fortuitos com vários velhinhos, mostraram que ele conhecia muito pouco de seu passado e suas origens. Quem eram essas pessoas? Porque as encontra aonde quer que fosse? Porque sempre estiveram próximas a ele? Porque estavam sempre observando?

Ele não sabia, mas seu destino estava escrito muito antes dele nascer; e pelas mãos dos condenados.

 

ENTREVISTA REALIZADA NO CANAL

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.