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A poesia e o feijão

Por Eduardo Vieira (originalmente escrito em dez/2018)
Quando eu era pequeno gostava muito de assistir aos filmes do Trinity (Terence Hill) e seu irmão gigantesco, Bud Spencer. Tinha visto uma cena em que o Trinity come um prato de feijão numa cantina no deserto e passei a imaginar aquela cena sempre que comia feijão, o que fazia todos os dias.
Os anos foram passando e vi diversas outras cenas com feijões. Feijões nas rações devoradas às pressas em campos de batalha na Europa ocupada pelos nazistas, feijões no jantar de uma família pobre mas feliz no filme do Frank Capra, feijões no transatlântico de luxo, feijões mexicanos e feijões brasileiros.
Assim minhas referências foram crescendo e minha visão do mundo leguminoso foi se ampliando e sofisticando até o presente, quando um prato de feijão evoca poesia e arte.
O que me mudou foi a quantidade de referências e de pontos de vista consumidos, especialmente em filmes, no caso do feijão. E o que a digestão de novas histórias faz conosco é justamente ampliar a nossa experiência de vida sem que precisemos nos expôr à dor e sofrimento dos nossos protagonistas. Mas estamos lá com eles enquanto padecem e também em seus momentos de redenção.
Na literatura sofri muito com a infância de Charles Dickens em seu belíssimo “David Copperfield”. Vibrei quando este, já seguro de si, desferiu a sonora bofetada na cara do desprezível Uriah Heep. Sofri com o castigo injusto de Edmond Dantès no “Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. Saboreei sua vingança e apreciei a justiça sendo aplicada contra seus inimigos.
Assisti horrorizado à crueza da vida na França n’Os Miseráveis, de Vitor Hugo. Desse livro recebi muito pouco em termos de redenção. Acompanhei o galante cavalheirismo de Mr. Phileas Fogg, escudeiro, na sua “Volta ao Mundo em 80 Dias”, do Júlio Verne. Cacei baleias mais de uma vez em “Moby Dick”, de Hermann Melville, e singrei os sete mares em todo tipo de embarcação.
Lutei nos ares pilotando Spitfires e Messerschmitts, e até sem as pernas lendo sobre a vida do feroz Douglas Bader. Fui à Lua numa bala de canhão gigante em “Rumo à Lua”, também do Verne, e assisti hipnotizado à obscena tentativa de corrupção de Eva pelo demônio em “Perelandra”, do CS Lewis.
Vivi na pele exemplos de bravura, de perdão, de bondade e de humanidade. Assisti o Bem prevalecer com doçura no sensacional “O Pequeno Lorde”, de Frances Hodgson Burnett, e chorei, comovido, ao assistir a tardia aprovação do pai de Bastian Balthazar Bux em “A História Sem Fim”, do Michael Ende.
Depois de todas essas histórias narradas por verdadeiros gênios da percepção humana, um pouquinho de cada experiência fica com o leitor e ajuda tremendamente na consolidação de valores e na formação do caráter.
Para mim, que perdi o pai ainda pequeno, foi um suporte fundamental, dentre muitos outros, para que eu não me perdesse totalmente no meu caminho.
Agradeço a Deus por ter me permitido adquirir o gosto pela leitura e aos autores que deram tanto de si para me ensinar tantas maravilhas através dos séculos.
A vocês desejo grandes e felizes leituras em 2022, com muita saúde, amor e paz.
Desculpem-me se pareceu que os ludibriei ao citar feijões e poesia no título e terminar em falando de lordes na Inglaterra. Mas os feijões são assim, perigosos. Especialmente se deixarem que a luz da Lua cheia os ilumine à noite.
Mas isso é outra história. Que Deus os abençoe.

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