Por uma sociedade apta a defender a liberdade, preservar sua história e construir um futuro digno, íntegro e próspero.

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Hannah Arendt, a banalidade do mal e o vândalo maltrapilho

por Cristiano H. Ferraz 

 

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Este texto é sobre a banalidade do Mal, apontada por Hannah Arendt em seu testemunho do julgamento de Eichmann e, simultaneamente, sobre um homem que lançava um paralelepípedo há alguns dias na face de uma das belas estátuas das esfinges montadas por um anjo que ladeiam o portão do Parque Guinle, uma pequena joia arquitetônica e paisagística e uma das preciosidades pouco conhecidas do meu querido Rio de Janeiro. Vejo dois aspectos de um fenômeno que não entendemos bem, porque estamos em meio a ele. Como mencionou Hegel (para mim, um dos “malvadões” da filosofia que transformaram a visão de mundo da humanidade e abriram caminho, longo e tortuoso e cheio de ramificações, para o pós modernismo), herdeiro de Kant e precursor de Heidegger, “a coruja de Minerva levanta seu voo ao anoitecer” – querendo dizer com isso que a sabedoria só enxerga tudo tarde demais, depois de os fatos terem passado.

A Covid primeiro, e agora a guerra da Ucrânia, confirmaram mais uma vez a iluminada compreensão de Hannah Arendt sobre a banalidade do Mal, e de como é pequena a distância entre o ser humano civilizado e afável e o ser humano amoral, ou mesmo imoral. Sem uma bússola para o Mal e o Bem, transformados pelo pós-modernismo em valores relativos, e com a falta de perspectiva sobre a proporção das coisas, o Mal e o Bem se confundem. E isso tem sido o que vem solapando há muitas décadas – e talvez há alguns séculos – as bases de nossa civilização, antes com os pés antes firmemente fincados na Antiguidade clássica e nos valores judaico-cristãos, centrados na liberdade do indivíduo (o Homem como centro da escala de valores, a liberdade individual, o livre arbítrio e Deus acima de tudo).

Mas não vamos excursionar pela História e pela Filosofia aqui.  O objetivo deste pequeno texto é apenas comentar um pouco sobre acontecimentos recentes e buscar um paralelo entre eles, embora ainda seja muito cedo para a coruja de Minerva levantar seu voo, pois ainda estamos na manhã deste dia difícil. Esses acontecimentos são: a invasão da Ucrânia pelo exército russo (e a irrealidade e temeridade da reação no Ocidente) e uma breve reflexão sobre o homem magro, negro, aparentemente um sem-teto, um pária da sociedade, que roubou os metais da esfinge do Parque Guinle, provavelmente para vendê-los por uns trocados e comprar seu prato de comida, sua cachaça ou sua pedra de crack (embora isso não importe, realmente) – e que depois, sem motivo algum, lançou um paralelepípedo sobre a cara da esfinge, em um ato inútil de destruição de algo belo.

Certamente, no caso do homem que depredou a estátua, virão defensores que se pretendem arautos da virtude a justificar e relativizar seu ato gratuito e inútil como fruto de uma justa revolta contra uma sociedade opulenta (será mesmo “opulenta”?) que o abandonou, apesar das instituições privadas e públicas de acolhida, das ações sociais de indivíduos e do estado, do abrandamento da justiça com respeito a pequenos delinquentes, com a nova moda de ESG (Environmental, Social and Governance) no comportamento cobrado de empresas, e do discurso coletivista baseado na dialética marxista.

No caso da invasão da Ucrânia, parece esquecido o que há anos tem sido inúmeras vezes apontado como a razão do conflito iminente (é só procurar o que os melhores líderes, diplomatas e pensadores do Ocidente vinham ponderando e recomendando num mundo de política e diplomacia reais) desde antes da anexação da Crimeia; ao contrário, essas constatações parecem não ter sequer sido consideradas pelos líderes do braço político da N.O.M. – que demonstra representar interesses que com toda a certeza não são os meus, nem os do Ocidente que imagino, nem, muito menos ainda, da Ucrânia.

A propaganda da N.O.M. não deixa transparecer as consequências em miséria, morte, escassez que causam quando insuflam propositalmente essa guerra, em vez de lutar por evitá-la; a maldade de enganar a população da Ucrânia e logo deixar com ilustre abandono que ela sofra as maiores perdas humanas e materiais; e esconde também a consequência dessa guerra materializada em uma degradação notável da prosperidade e da liberdade de nossa civilização. Isso não me parece (ainda que seja cedo para certezas) algo fortuito, causado pela inconsequência, irresponsabilidade ou ingenuidade dos líderes ocidentais que parecem ter abandonado a realidade, a Realpolitk, para realizar seu intento real coletivista de redesenhar o mundo.

Demonizar o Putin ou a Rússia, sacrificar o povo ucraniano e isentar seus líderes globalistas, e construir uma narrativa única e cancelar o debate certamente é uma tática diversionista para chegar ao objetivo dessa nova versão de coletivismo chamada Nova Ordem Mundial, com sua falsa agenda de prosperidade, virtude e felicidade, com o preço tão banal (para os propagadores da N.O.M.) do abandono da liberdade individual, do livre arbítrio e de tudo o que possibilita a realização plena do potencial do ser humano. Nessa guerra há uma vítima clara, que é a população da Ucrânia (daí sua relação com a banalidade do Mal: o sacrifício inútil de pessoas no altar das ideologias coletivistas); há também vítimas ocultas (as populações da Rússia e do próprio ocidente, que terão que pagar com seu suor e sacrifícios a conta da guerra, e das sanções financeiras e carestia que virão como cauda longa dessas ações). Há um agressor, demonizado, e um outro agente insidioso, oculto, também agressor embora disfarçado de virtuoso que quer redesenhar o tabuleiro para lograr seu intento, mesmo com os custos que as vítimas de todos os lados terão que pagar. Essa guerra previsível era evitável, e seu custo também – mas foi, a meu ver, intencional.

Na verdade, era previsível que o rumo que o mundo está tomando resultasse nisso – só que ainda é cedo para certezas (a coruja de Minerva ainda está dormindo). Mas se observarmos aquilo que a Covid ensejou em termo de aplicação de políticas que cerceiam a liberdade, da banalidade do Mal resultante da destruição das economias ocidentais e da resultante insustentabilidade das moedas nas bases anteriores, do aumento do autoritarismo dos governantes e da corrupção praticada por corporações e governos, deveríamos perceber a intensidade da guerra que deveríamos estar lutando, por nossos descendentes, contra esse inimigo interno, insidioso e vestido de um falso manto de virtude.

Mas a Rússia tem culpa, sim, é claro – e não apenas pela invasão da Ucrânia e sua doutrina subjacente, o Eurasianismo. Uma culpa muito mais longa que a da invasão da Ucrânia, berço do povo eslavo (Kiev é de onde surgiu o povo Rus). Culpa longa, com as táticas, hoje fartamente documentadas, de subversão do Ocidente a partir de dentro com agentes infiltrados, fomentada inicialmente pela KGB e prosseguida pela FSB, escola da qual o líder russo Putin sempre fez parte. É cabível até mesmo que a assunção da postura de salvador da Cristandade por Putin decorra de uma tentativa de, após a secularização do Ocidente que em ocorrendo em parte importante por iniciativa da escola marxista, aparentar ser a única alternativa para resgatar valores tradicionais que salvariam o Ocidente do ocaso do qual ele mesmo foi agente causador. Duguin, ideólogo seguido por Putin, e seu eurasianismo místico e coletivista? Continuação do marxismo? Tudo isso junto e misturado? Ah essa coruja que não levanta voo…

Tanto no caso do mendigo que vandalizou a estátua quanto no sacrifício inútil do povo ucraniano, vejo dois aspectos da mesma moralidade dúbia do globalismo e progressismo: a relativização do mal – e como esta conduz à banalização do mal. Ver tudo segundo a ótica da teoria crítica significa perder de vista a natureza humana e ao mesmo tempo, um desprezo pela individualidade do homem ao considerá-lo apenas como uma peça em um jogo de coletivismo – classes, raças, gêneros, culturas, história, genealogia, comportamentos – e negar sua individualidade, sua plena realização pessoal e seu livre arbítrio.

Enfim, há quem defenda Putin e o Eurasianismo. Isso só é desculpável caso desconheça essa doutrina e seu defensor no campo da filosofia (Duguin) e talvez acredite na narrativa falsa de que Putin é defensor dos valores conservadores. E há outros, mais informados, que defendem a postura e o papel dos líderes a serviço da N.O.M. Isso demonstra um consentimento intencional ao tal reset que pretendem os globalistas, pois os objetivos da N.O.M. são francamente estatistas, socialistas, coletivistas, e não se pode alegar desconhecimento desses objetivos. Quem se posiciona conscientemente a favor da N.O.M. demonstra uma aprovação tácita de sua política que em grande parte ensejou a guerra na Ucrânia e suas consequências, mesmo diante dos avisos e sinais que a antecederam.

O momento requer prudência e compreensão do que está em jogo, e compaixão pelas vítimas diretas e indiretas da guerra, na Ucrânia, na Rússia e no Ocidente. E, principalmente, união na ação firme contra as forças das trevas, estejam de que lado estejam nesse conflito.

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