๐๐ฆ๐๐๐๐ ๐ฒร๐ญ: ๐ข ๐๐๐๐ฆ๐ข ๐๐ข๐ก๐๐๐๐ง๐ข ๐๐ก๐ง๐ฅ๐ ๐๐ ๐ฃ๐ฅ๐๐๐๐๐ข๐ฆ ๐ ๐๐ ๐ฃ๐ฅ๐๐๐๐๐ข๐ฅ๐๐ฆ โ Por Guilherme Azevedo
Rio de janeiro, 28 de fevereiro de 2026.
No รขmbito do atual debate sobre a reduรงรฃo do limite mรกximo da escala e da jornada de trabalho, formaram-se dois grandes campos. De um lado, empregadores e entidades empresariais, apreensivos com os impactos econรดmicos que uma imposiรงรฃo dessa natureza โ sem a correspondente reduรงรฃo salarial โ pode gerar sobre seus negรณcios e sobre a economia como um todo. De outro, empregados que trabalham ou jรก trabalharam na escala 6 por 1 sob a jornada de 44 horas semanais, alรฉm de pessoas que, mesmo nรฃo submetidas a esse regime, se solidarizam com o pleito.
Como esse segundo grupo รฉ significativamente maior que o primeiro, o ambiente polรญtico encontra-se em ebuliรงรฃo. Mandatรกrios, atentos ร s eleiรงรตes que se avizinham, mostram-se cada vez mais propensos ร aprovaรงรฃo de uma emenda constitucional que altere o inciso XIII do art. 7ยบ da Constituiรงรฃo Federal, reduzindo tanto os limites da jornada quanto da escala de trabalho no paรญs.
Diante disso, parece-me que a questรฃo central jรก nรฃo รฉ se essa reduรงรฃo ocorrerรก, tampouco quando ocorrerรก. A probabilidade de que isso aconteรงa ainda este ano tende a 100%. A pergunta relevante, portanto, รฉ como essa mudanรงa serรก implementada.
Nesse contexto, nรฃo adianta ร classe empresarial limitar-se ร apresentaรงรฃo de estudos de impacto econรดmico se nรฃo houver, simultaneamente, a oferta de alternativas que reconheรงam a inevitabilidade da reduรงรฃo, mas busquem mitigar seus efeitos negativos.
Nรฃo hรก esforรงo mais inรบtil do que aquele que se faz contra o surgimento de um fenรดmeno cujo tempo chegou.
O falso antagonismo entre empregados e empregadores
O debate atual รฉ permeado por argumentos razoรกveis de ambos os lados, o que frequentemente cria a impressรฃo de que empregados e empregadores ocupam posiรงรตes irreconciliรกveis โ como se o ganho de um implicasse, necessariamente, a perda do outro. Permito-me, contudo, trazer uma perspectiva alternativa.
ร inegรกvel que, caso seja aprovada a reduรงรฃo do limite da escala e da jornada sem reduรงรฃo salarial, o valor-hora da mรฃo de obra aumentarรก. Se a produtividade nรฃo acompanhar esse aumento na mesma proporรงรฃo, o empregador serรก compelido a contratar mais trabalhadores, elevando os custos do negรณcio. Essa preocupaรงรฃo รฉ legรญtima e nรฃo pode ser descartada como mero apego a privilรฉgios.
Recentemente, a FIESC divulgou estudo apontando impactos econรดmicos negativos, partindo da premissa de que a reduรงรฃo da escala e da jornada nรฃo geraria ganhos de produtividade e, portanto, sรณ deveria ser considerada apรณs um aumento estrutural da produtividade brasileira.
Embora respeite profundamente a iniciativa da entidade e compreenda suas preocupaรงรตes, toda premissa precisa ser testada ร luz da realidade concreta e essa me parece excessivamente pessimista, pois desconsidera ao menos dois fatores relevantes.
O primeiro รฉ o efeito fรญsico, mental e motivacional decorrente da conquista de mais um dia de descanso semanal. A literatura sobre o Modelo de Esforรงo-Recuperaรงรฃo[1] demonstra de forma consistente que a ausรชncia de recuperaรงรฃo adequada gera queda de performance, adoecimento e perda de produtividade ao longo do tempo โ fenรดmenos que, cedo ou tarde, tambรฉm impactam o resultado econรดmico das empresas.
O segundo fator diz respeito ร gestรฃo de pessoas. A reduรงรฃo da jornada impรตe ร s empresas o desafio โ e, ao mesmo tempo, a oportunidade โ de rever processos, aprimorar mรฉtodos, investir em lideranรงa e reorganizar fluxos de trabalho, de modo que os empregados consigam entregar em 40 horas aquilo que antes entregavam em 44.
ร nesse ponto que o antagonismo aparente comeรงa a se desfazer.
O empregador deseja que seus empregados estejam o mais saudรกveis e motivados possรญvel, pois, alรฉm das evidentes razรตes humanitรกrias, isso se traduz em ganhos concretos de produtividade e de qualidade do trabalho entregue. Um trabalhador exausto, adoecido ou desmotivado nรฃo รฉ apenas um problema social, mas tambรฉm econรดmico. Por isso, embora os interesses de empregados e empregadores frequentemente pareรงam opostos nesse debate, รฉ bastante razoรกvel concluir que eles sรฃo, em essรชncia, compatรญveis. O verdadeiro desafio nรฃo estรก no conflito de interesses, mas no ajuste de perspectivas necessรกrio para que ambos reconheรงam essa convergรชncia.
Reconhecer essa compatibilidade, contudo, nรฃo elimina as dificuldades prรกticas da transiรงรฃo โ sobretudo para empresas menores, com estruturas mais enxutas e menor margem de manobra operacional. ร justamente aรญ que o debate precisa abandonar soluรงรตes binรกrias e avanรงar para propostas graduais, realistas e sensรญveis ร s diferentes realidades produtivas do paรญs.
O peso desproporcional sobre as pequenas empresas
ร imprescindรญvel reconhecer, contudo, que as pequenas empresas, especialmente aquelas com poucos funcionรกrios, tendem a sofrer de forma mais intensa com a reduรงรฃo da escala. A reorganizaรงรฃo de horรกrios, nesses casos, torna-se um quebra-cabeรงa operacional.
Imagine-se um pequeno comรฉrcio que funcione de domingo a domingo, com apenas dois funcionรกrios na escala 6 por 1, revezando-se para folgar aos domingos. A concessรฃo de mais um dia de folga semanal cria uma lacuna relevante no quadro de horรกrios, com alto potencial de comprometer o funcionamento do negรณcio โ salvo a contrataรงรฃo de mais um empregado, o que pode inviabilizar economicamente a operaรงรฃo.
Foi justamente para enfrentar essa realidade concreta que o Instituto Civitas elaborou e publicou recentemente a proposta denominada โEscala Livreโ [2], acompanhada de uma PEC e de um projeto de lei regulamentador. A proposta contempla a reduรงรฃo do limite da jornada para 40 horas semanais e da escala para 5 por 2, sem reduรงรฃo salarial, mas com implementaรงรฃo escalonada, gradual, com tratamento diferenciado para microempresas e empresas de pequeno porte, implementando o valor do salรกrio por hora como padrรฃo e ampliando a flexibilizaรงรฃo na contrataรงรฃo. O objetivo รฉ simples e pragmรกtico: ampliar a possibilidade de organizaรงรฃo interna e de captura dos ganhos de produtividade ao longo do tempo.
A escala 6 por 1 sob a รณtica de quem a vive
Se, por um lado, รฉ legรญtima a preocupaรงรฃo com os impactos sobre os negรณcios, por outro, apenas quem trabalha โ ou jรก trabalhou โ na escala 6 por 1 tem plena consciรชncia do desgaste fรญsico e mental que ela impรตe.
Dispor de apenas um dia na semana para descansar, conviver com os filhos, ter momentos de lazer e ainda resolver questรตes pessoais inadiรกveis รฉ profundamente desafiador. Para muitos brasileiros, o maior problema nรฃo รฉ a jornada de 44 horas em si, mas a escala.
Isso porque, na prรกtica, a jornada real costuma ser significativamente maior. A precariedade da infraestrutura urbana faz com que milhรตes de trabalhadores passem entre quatro e seis horas diรกrias em deslocamentos. Saem de casa antes do amanhecer, por volta das cinco da manhรฃ, para chegar ao trabalho ร s oito, e sรณ retornam ร s oito ou nove da noite, mesmo saindo do trabalho ร s cinco da tarde.
Para essas pessoas, o verdadeiro divisor de รกguas nรฃo รฉ a reduรงรฃo da jornada, mas da escala. Ter dois dias consecutivos de descanso representa um alรญvio tรฃo significativo que รฉ razoรกvel supor impactos positivos sobre o humor, a saรบde fรญsica, a saรบde mental e, por consequรชncia, a produtividade.
Quem jรก trabalha alรฉm da escala 6ร1 e das 44 horas semanais
Hรก, contudo, um ponto frequentemente ignorado nesse debate: milhรตes de brasileiros jรก trabalham legalmente alรฉm da escala 6 por 1 e das 44 horas semanais.
Sim, รฉ possรญvel trabalhar na escala 7 por 0 no Brasil. Ela nรฃo รฉ permitida para empregados em contrato tรญpico de trabalho, mas รฉ realidade para muitos:
- empregadores, como proprietรกrios de pequenos comรฉrcios que nunca fecham;
- autรดnomos, como taxistas, motoristas de aplicativo, entregadores, diaristas, agricultores, garรงons;
- profissionais liberais; e
- empregados com mais de um vรญnculo empregatรญcio.
Essas pessoas raramente aparecem no debate pรบblico, mas sustentam silenciosamente uma parte relevante da economia brasileira.
Estima-se que existam hoje no paรญs cerca de 9 a 10 milhรตes de proprietรกrios de pequenos negรณcios no comรฉrcio[3]; 300 mil taxistas[4]; 1,7 milhรฃo de motoristas de aplicativo[5]; 32,5 milhรตes de trabalhadores autรดnomos informais[6]; e cerca de 6,5 milhรตes de profissionais liberais[7].
Para uma parcela significativa desses brasileiros, trabalhar todos os dias nรฃo รฉ opรงรฃo ideolรณgica, mas necessidade circunstancial de subsistรชncia.
Conclusรฃo: empatia, realismo e maturidade
Diante desse cenรกrio, discutir a limitaรงรฃo da escala e da jornada exige empatia e realismo. ร preciso olhar com a mesma compaixรฃo para empregados e empregadores. Nรฃo hรก vilรตes nem herรณis. Hรก trabalhadores brasileiros โ de ambos os lados โ lutando diariamente para sustentar suas famรญlias.
A maturidade do debate passa, necessariamente, pela rejeiรงรฃo de soluรงรตes simplistas e pela construรงรฃo de alternativas equilibradas, capazes de conciliar dignidade do trabalho, viabilidade econรดmica e sustentabilidade social. Ignorar essa complexidade รฉ o caminho mais curto para produzir injustiรงa em nome de boas intenรงรตes.
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[1] Ver O Modelo de Esforรงo-Recuperaรงรฃo (E-R Model)
Este รฉ o estudo seminal que explica como a falta de recuperaรงรฃo se transforma em problemas de saรบde e queda de performance.
- Referรชncia: Meijman, T. F., & Mulder, G. (1998). Psychological aspects of workload.
- Link: Consultar via ResearchGate
[2] Ver www.civitas.org.br/12/02/2026/๐๐๐ฅ๐ง๐-๐๐๐๐ฅ๐ง๐-๐๐ข๐ฆ-๐๐/.
[3] Para chegar ao nรบmero de 9 a 10 milhรตes de proprietรกrios, a lรณgica estatรญstica aplicada pelos รณrgรฃos รฉ:
- Estoque Total de Pequenos Negรณcios: ~22 milhรตes (considerando MEI, ME e EPP ativos em 2026).
- Fatia do Comรฉrcio: ~35% (Mรฉdia histรณrica e atual do setor no estoque total).
- Resultado: $\approx 7,7$ milhรตes de empresas.
- Ajuste por Proprietรกrios: Como Microempresas (ME) e Empresas de Pequeno Porte (EPP) frequentemente possuem mais de um sรณcio, o nรบmero de CPFs (proprietรกrios) supera o nรบmero de CNPJs, elevando a estimativa para a faixa de 9 a 10 milhรตes de indivรญduos.
Abaixo estรฃo os links e as referรชncias principais para conferรชncia:
- Painel e Boletins do Mapa de Empresas (GOV.BR)
Este รฉ o site oficial que monitora o estoque de empresas no Brasil. Em novembro de 2025, o painel registrava 24,9 milhรตes de empresas ativas, das quais cerca de 94% sรฃo pequenos negรณcios (MEI, ME e EPP).
- Link: Mapa de Empresas – Painel Estatรญstico
- Evidรชncia: O setor de Comรฉrcio aparece consistentemente como a principal ou segunda maior atividade econรดmica em volume de empresas (junto com Serviรงos), detendo aproximadamente 30% a 35% do estoque total de CNPJs.
- Agรชncia Sebrae de Notรญcias (ASN)
Relatรณrios recentes confirmam o recorde de empreendedorismo. No ano de 2025, foram abertos 5,1 milhรตes de novos negรณcios, sendo que o setor de comรฉrcio foi responsรกvel por 21% das aberturas de MEIs.
- Link: Recorde: 5,1 milhรตes de empresas abertas em 2025 (Sebrae)
- Contexto: O portal detalha que o Brasil possui mais de 15,5 milhรตes de MEIs ativos, e a fatia do comรฉrcio varejista (especialmente vestuรกrio e alimentaรงรฃo) รฉ a mais densa.
- Atlas dos Pequenos Negรณcios (Ediรงรฃo 2025)
O Sebrae lanรงou em outubro de 2025 um estudo aprofundado que mapeia o perfil dos proprietรกrios e o impacto social dessas empresas.
- Link: Atlas dos Pequenos Negรณcios 2025 – Sebrae
- Evidรชncia: O relatรณrio aponta que 97% das empresas no paรญs sรฃo pequenos negรณcios e que o comรฉrcio varejista รฉ a atividade com o maior nรบmero acumulado de estabelecimentos fรญsicos.
[4] Ver Dados do Ministรฉrio do Trabalho e Emprego (Benefรญcio Taxista)
A base mais precisa para o nรบmero total de taxistas ativos vem do pagamento de auxรญlios federais, onde os profissionais precisam de registros municipais ativos (alvarรกs) para receber o recurso. O Governo Federal consolidou o nรบmero de 300 mil profissionais aptos em todo o territรณrio nacional.
- Link: Portal Gov.br – Dados sobre o Benefรญcio aos Taxistas
- Evidรชncia: O relatรณrio final de concessรฃo de benefรญcios confirma o teto de profissionais cadastrados pelas prefeituras.
[5] Ver Agรชncia Brasil (EBC): Nรบmero de trabalhadores por aplicativo chega a 1,7 milhรฃo.
[6] Ver https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-04/mais-de-32-milhoes-sao-autonomos-informais-ou-trabalham-sem-carteira
[7] Em 2026, estima-se que existam cerca de 6,5 a 7 milhรตes de profissionais liberais ativos no paรญs. Abaixo, detalho os nรบmeros das principais categorias com base nos dados mais recentes dos conselhos e do governo:
- Nรบmeros por Categoria (Dados 2025/2026)
| Categoria Profissional | Nรบmero Estimado | Fonte de Referรชncia |
| Mรฉdicos | ~635.000 | Demografia Mรฉdica 2025 (USP/CFM) |
| Dentistas | ~450.000 | Conselho Federal de Odontologia (CFO) |
| Advogados | ~1.300.000 | Quadro de Advogados da OAB |
| Arquitetos | ~160.000 | Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/BR) |
| Engenheiros | ~1.100.000 | Sistema Confea/Crea (Estoque Consolidado) |
| Contadores | ~520.000 | Conselho Federal de Contabilidade (CFC) |
